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sábado, 1 de junho de 2013

Seja boazinha




A casa da professora ficava no final da rua larga e arborizada. O muro alto preservava o interior de olhares indiscretos e curiosos. O portão de ferro chapado, sem nenhuma fresta, era cúmplice na proteção da privacidade. O pé de buganville recobria quase todo o muro com seus cachos fartos e floridos, agora especialmente vistosos sob o sol ardente e brilhante do início da tarde. Uma brisa brincalhona vez ou outra convidava os cachos para dançar. Era uma casa imponente naquela rua de moradias modestas, muitas delas ainda em construção, em meio a lotes apenas demarcados com estacas e arame, à espera que seus donos juntem algum dinheiro para iniciar a construção. A cidadezinha estava crescendo para aqueles lados.
Mesmo antes de chegar, tocar a campainha e entrar, a menina sabia descrever o lado de dentro daquele muro cinza grafite salpicado de verde e vermelho sangue das buganvilles.  Vinha ali todos os dias após o almoço. Gostava muito da professora e era correspondida nesse sentimento. Era uma aluna aplicada, disciplinada, inteligente, adjetivos que a professora empregava sem economia ao tomá-la como exemplo em seus sermões para convencer alunos relapsos a se empenharem mais nos estudos.
A primeira vez em que fora convidada pela professora para ir até sua casa sentiu um certo orgulho, um que de superioridade diante dos colegas. Gostou de se sentir preferida. Depois, esqueceu esse sentimento que foi logo substituído pelo prazer gozado naquelas tardes mornas e paradas em uma casa silenciosa e confortável, tão diferente do barraco onde vivia com a mãe e os irmãos em escadinha, onde a algazarra, os gritos e choros compunham com a miséria total.
Quando as visitas começaram, espaçadas e rápidas, a mãe não se importou. À medida que foram crescendo em frequência e duração, a mãe desfiava seu rosário de reclamações por contar cada vez menos com a ajuda da filha mais velha nas tarefas cotidianas. Lavava roupas para fora e vendia cocadas nos dias de feira livre. Marido nunca tivera, os filhos nascendo um após o outro e se criando sozinhos. Apesar das reclamações, não proibia as visitas porque acabavam sempre rendendo alguma doação benevolente da professora que nunca deixava a menina voltar para casa de mãos vazias.
Um dia, subitamente, a mãe parou de reclamar, chegando mesmo a incentivar as visitas, que passaram a ser diárias. Justificou a mudança de atitude dizendo que essa amizade com uma pessoa de destaque como a professora era muito importante para o futuro da filha. Quem sabe, ajudada pela professora, poderia se formar e ter uma profissão? Ademais, se não conseguisse chegar a tanto, a ajuda que recebia com a doação de alimentos e, esporadicamente, uma roupa nova, era melhor do que nada, disse encerrando o assunto e selando a permissão.
A aceitação da mãe tornou as visitas mais prazerosas. A menina libertou-se de um certo sentimento de culpa por querer fugir todos os dias da miséria familiar para o paraíso alheio. Além da televisão, do computador e dos lanches fartos, amava a biblioteca recheada de livros maravilhosos, ilustrados, coloridos. Era aí que passava a maior parte do tempo, para deleite da professora que gostava de vê-la compenetrada na leitura.
A professora não tinha filhas, frustração que acalentava no escondido. Do seu casamento de vinte anos, nascera-lhe apenas um menino, hoje um robusto rapaz de quatorze anos. O que tinha de robusto tinha de rebelde e enfezado. Nada herdara da gentileza e benevolência da mãe. Em compensação, era uma espécie de miniatura do pai, na truculência, na grosseria e no físico avantajado. Aliás, era um mistério para a cidadezinha como uma pessoa tão benévola e gentil como a professora pode ter como marido um brutamonte brigão e mal encarado como aquele bon vivant. Sim, porque o marido da professora não trabalhava, vivia de bar em bar, de farra em farra e, não raro, sumia por muitos dias não se sabe para onde. O mistério dessa união, no entanto, se perdia no passado e em terras distantes, já que o casal morava ali há apenas alguns anos.
O menino tinha uma preferência declarada pela companhia do pai, o que muito atormentava a mãe que, em seu silêncio resignado, aceitava. Já havia desistido de despertar nele o gosto pelos estudos e o amor aos livros. Assim como o pai, era avesso a qualquer atividade intelectual ou mais calma. Gostava mesmo era da rua, do movimento, das confusões.
Quanto mais o tempo passava, mais a professora sentia que amava aquela menina como a uma filha. A frequência dos encontros e a companhia compartilhada estreitaram os laços afetivos entre elas. Já não se surpreendia quando percebia-se fazendo projetos para o seu futuro. A menina sentia todo o calor e sinceridade desse amor e gostava. Gostava da professora, gostava da casa, gostava dos livros. Tudo seria perfeito se não fosse por algo que a incomodava: tinha aversão ao menino e ao seu pai. Sentia calafrios quando a encaravam como se fosse um inseto insignificante.
E foi assim por muito tempo, até que as coisas começaram a mudar. Repentinamente, o marido da professora começou a puxar conversa, oferecer doces, fazer mimos que a menina sabia por intuição que eram falsos. Aos calafrios juntara-se uma mistura de terror e asco. A menina pressentia algum tipo de perigo. Só não foi capaz de perceber a coincidência das duas mudanças: na mesma época em que sua mãe passou a permitir e até a incentivar as visitas diárias, o homem subitamente foi tomado por rompantes de gentileza.
A professora também notou a mudança de atitude do marido para com a menina e isso a alegrou. Intimamente acalentava um sonho e esperava o momento certo para partilhar com o companheiro. Agora ao notar os olhares (que interpretava como afetivos), as gentilezas, os cuidados que ele dispensava à garota, seu coração encheu-se de esperança. Mais algum tempo e já poderia compartilhar com ele o seu projeto de adotar aquela que já considerava uma filha.
O rapaz mantinha-se calado e distante, mas a menina já o surpreendera algumas vezes olhando-a de um modo diferente. Especialmente os seus pequenos seios que começavam a despontar arredondados sob a blusa surrada. Alguma coisa nesse olhar a incomodava, mas não sabia ao certo o que era. Aquele era um olhar estranho, incandescente e que expressava algo que ela não identificava, mas sabia que não era bom. Por sorte, pai e filho quase não paravam em casa, e a menina considerava esses dias um oásis de paz.
Naquela tarde, enquanto se dirigia para a casa da professora, a menina estava feliz. Sabia que o pai e o rapaz não estariam em casa, haviam viajado juntos. Em dias assim, quando tinha a certeza dessa ausência, sentia-se totalmente livre, plena de alegria. Tão leve que poderia dançar ao vento como os cachos de buganville. Achou estranho que o portão estivesse destrancado, mas pensou que a professora, sabendo da sua vinda certa o tivesse deixado entreaberto. Talvez estivesse ocupada com algum afazer que a impossibilitasse de parar para abrir o portão e por isso antecipara-se.
Entrou, fechou o portão e adentrou a casa com a intimidade de quem já se sente parte daquele lugar. Na sala vazia a TV estava ligada, o que também era incomum. Chamou, mas não obteve resposta. Dirigiu-se à cozinha, passando primeiro pela copa onde havia dois pratos sobre a mesa. A visão dos dois pratos trouxe à sua espinha o velho e conhecido calafrio, mas logo se tranquilizou ao lembrar que seus causadores não estavam na casa. Provavelmente a professora havia recebido alguém para o almoço.
A cozinha em desordem também não era habitual. Foi até a porta que dava para o quintal e chamou mais uma vez. Nada. Só o cachorro, que passava o dia preso na corrente e era solto à noite para proteger a casa, estava ali. Fez uma festinha em sua cabeça e voltou-se para o interior. Resolveu esperar na sala. A professora poderia ter saído até um lugar próximo, para voltar logo. Talvez por isso a TV estivesse ligada e o portão estivesse aberto, ela sabia que a menina não demoraria a chegar. Começou a brincar com o controle, mudando os canais por pura diversão. Achava isso o máximo. Os minutos passavam e a menina sentiu-se inquieta.
Foi até a biblioteca e começou a percorrer os títulos com os olhos. Escolheu um livro e estirou-se no confortável sofá para ler. Era um dos seus títulos preferidos, mas estava agitada demais para conseguir se concentrar. Foi até a janela e olhou para o pequeno jardim onde o tempo parecia parado, tudo muito quieto. A tarde carregava um silêncio pesado demais, pensou a menina. Aquela quietude toda tinha algo de mórbido.  De repente sentiu-se congelar, uma ideia nada boa passando pela cabeça: e se tivesse acontecido algo terrível com a professora? E se ela estivesse caída em algum canto da casa, passando mal, ferida ou... morta?
Saiu do torpor e correu em direção aos quartos, o coração aos pulos. O primeiro era o quarto do rapaz, que estava vazio, mas estranhamente bagunçado, como se seu dono estivesse em casa. O próximo era o quarto de hóspedes, onde costumava tirar uma soneca quando estava muito cansada. Nada ali também. Deu dois passos para trás, fechou a porta e virou-se em direção ao quarto do casal. Sentiu-se presa ao chão, sem coragem de continuar. A porta estava fechada, como sempre. Este era o único lugar da casa onde nunca ousara entrar. Algo a impedia, uma certa sensação inexplicável de perigo. Mas precisava vencer o medo que a imobilizava. A professora poderia estar lá dentro precisando da sua ajuda.
Deu dois passos de chumbo e parou, chamando com voz trêmula. O silêncio que se seguiu foi ficando insuportavelmente tenso. Chegou diante da porta e colou o ouvido, buscando ouvir alguma coisa. Pensou ouvir o som de alguém respirando ou ressonando. Desarmou-se, que boba que tinha sido, a professora deveria estar dormindo. Claro!, devia ter deitado após o almoço e foi vencida pelo cansaço, afinal era sexta-feira.
Abriu a porta devagar tentando observar pela fresta, apenas para ter certeza. O aposento estava na penumbra, as cortinas escuras fechadas, obstruindo a passagem da luz solar que brilhava lá fora. Não viu a cama, abriu mais um pouco para ter uma visão mais ampla do quarto. Ao localizar a cama, nova surpresa: a professora não estava ali. Aliás, a cama estava impecavelmente arrumada. Escancarou a porta, novamente apreensiva, e entrou. Chamou.
Pensou ter ouvido alguma coisa no banheiro e correu para lá. Antes de abrir a porta, percebeu um movimento atrás de si. Virou-se instintivamente e sentiu o sangue fugir das veias. Parado no meio do quarto com aquele olhar estranho e incandescente estava o filho da professora. Peito nu, sem camisa, calça desabotoada, braguilha aberta. E avançava em sua direção. Aterrorizada, a menina deu um passo para trás. Esbarrou em algo. Não precisou voltar-se para saber de quem se tratava ao ouvir uma voz cavernosa, forçosamente gentil:

- Seja boazinha.


 Normeide Rios


domingo, 24 de março de 2013

A padaria de seu Dedé


Recentemente Silvania Gomes postou no Facebook uma foto antiga da padaria do seu pai, em Várzea da Roça. A padaria de seu Dedé. Em poucos dias, a imagem ganhou uma repercussão muito grande, agregando varzeanos de todos os lugares, unindo no espaço virtual, do Facebook e da memória, pessoas que vivem na nossa cidade e pessoas que estão espalhadas pelo Brasil. Cada um buscou suas memórias da infância e adolescência, despertando lembranças pessoais várias.
Pães, biscoitos, cheiros, abelhas, tubaína, prosa, tudo acordado e presentificado. A padaria de seu Dedé, que não sei se tinha nome – e se tivesse para nós não importaria, pois seria sempre a “padaria de seu Dedé” –, atravessou gerações alimentando desejos, adocicando sonhos, perfumando a vida de todos os varzeanos. Padaria dotada de eternidade, sempre existiu, nascíamos e ela estava ali, nos esperando com seus pães alimentadores do corpo e da alma. Sim, porque a padaria de seu Dedé não só vendia pães para saciar a fome. Como brinde vinham os encontros, bate-papos, descanso, relaxamento. Se estávamos cansados, tristes, estressados, solitários, felizes, comemorativos, íamos à padaria de seu Dedé. Todos nós, como confirma Gardi Sales Sales: “Lembro tanto desse lugar, talvez o lugar que todos de Várzea lanchavam à tarde! E das abelhas... eram tantas.” Era o nosso point, o nosso mcdonalds. Como bem lembrou Rodrigo Rios, “a coisa mais chique que tinha na infância era comer um pão de doce e tomar uma tubaína na padaria de Seu Dedé.”
O sabor do melhor pão da cidade está na lembrança de inúmeras pessoas. Eram basicamente pão de sal, pão de leite e pão de doce. E cada um deles era o melhor. E haviam os biscoitos, os mais lembrados são o biscoito comum e o biscoito palito, este último perfeito com café puro, como disse Silvânia, vendidos a granel, pesados ali na hora, diante do freguês que dizia a medida, e sob os olhos cuidadosos de seu Dedé: “E pai sempre recomendava: " Presta atenção na balança, menina!", diz Silvania.
As combinações também eram uma marca, já que na padaria de seu Dedé não comprávamos apenas os pães e biscoitos para levar para casa, mas comíamos lá também. O pão de sal quentinho recebia a melhor manteiga da região e devorávamos ali mesmo com café ou tubaína. Dentre as combinações, uma se destaca, lembrada pelo Marcos Maia: o pão com rapadura. A rapadura era previamente cortada em pedaços e colocadas em frasqueiras. E as lembranças do paladar evocam outras memórias, a exemplo das doces lembranças familiares da Bianca Moreira, neta de seu Dedé, que embora muito pequenina quando se separou do avô, guardou bons momentos vividos: “Saudades de quando eu ficava sentada em cima do balcão comendo pão e biscoitos que minha vozinha e meu vozinho faziam.
Os pães da fornada da tarde eram os mais esperados. Antes mesmo de eles chegarem no balcão, um aglomerado de pessoas ia se formando na padaria ou na praça, esperando o pão quentinho. Muitas vezes, como lembra Vanuza Barreto, ficávamos impacientes e íamos encontrar o pão no caminho ou busca-los lá onde era feito. Isso porque o pão da padaria de seu Dedé não era feito no mesmo lugar onde era vendido. Os fornos ficavam na outra praça e, depois de assados, os pães eram levados em carrinhos até a padaria. O percurso feito pelos pães quentinhos, enchia a cidade de cheiros. Muitas pessoas, chamadas pela delícia olfativa, saíam de suas casas e paravam os carrinhos para comprar o pão ali na rua mesmo, como lembra Fabia Gomes. Isso atrasava a entrega e as pessoas que esperavam se impacientavam, ainda mais porque já sentiam o cheiro, que chegava antes dos pães, e era sempre preciso enviar alguém para apressar os entregadores. Os pães em seu percurso não atraíam apenas as pessoas, mas chamavam também um grande enxame de abelhas que disputava conosco aquela delícia doce e emprestava seus zumbidos para compor o fundo musical do momento.
Um aspecto importante dos fornos da padaria de seu Dedé, lembrado por Jeliane Pacheco, era o seu uso coletivo pela comunidade: “Eu lembro onde o pão era assado... Seu Dedé deixava a gente assar os bolos do colégio e da Igreja no lugar onde eram feitos os pães da padaria e aí eu ficava vendo as fornalhas de pão quentinhas saindo... Muitas lembranças com cheiro de simplicidade.” Após a feitura dos pães, qualquer um poderia assar bolos, biscoitos e outras guloseimas, desde que avisasse com antecedência e se responsabilizasse por fechar tudo e entregar a chave na padaria.
Abro um parêntesis para relembrar que a padaria de seu Dedé não foi sempre neste espaço registrado na foto, e não foi sempre a “padaria de seu Dedé”. Assim como todos nós, a padaria também tem uma história. Nasceu em espaço físico menor, esse o da minha infância, e era a “padaria de Dedé e Hermelino”. No meu imaginário infantil, Dedé e Hermelino fundiam-se em uma pessoa só. Lembro do grande balcão de madeira, simples e tosco, que abrigava os mais deliciosos pães e biscoitos. Os pães eram embalados em pedaços de papel de embrulho pardacentos. Eu, menina, ficava encantada e hipnotizada com a agilidade daqueles dedos fechando os pacotes, em movimentos precisos que uniam as duas pontas do papel em um arranjo artístico perfeito e seguro. Esses papéis, já em casa, tinham inúmeros outros reaproveitamentos. No meu caso, usava-os para desenhar e escrever.
Seu Dedé, figura magra, de óculos, meio drummond na aparência física, era um homem muito educado, prestativo, inteligente. Historiador, na nossa visão, sabia de cor e salteado a história do surgimento e crescimento de Várzea da Roça. Trabalho de escola sobre Várzea da Roça e região, sua economia, política, figuras históricas, flora e fauna, açudes e lagoas, população, já tinha fonte certa. Seu Dedé era nossa fonte de pesquisa. Até as professoras o procuravam para aumentar seus conhecimentos. Bom de papo, seu Dedé atraía também quem gostava de uma boa conversa, como disse Eliene Souza: “tenho também muita saudade do seu pai, todas as vezes que ia lá era aquela prosa!”
Silvânia Gomes, ao postar a foto, comenta “acredito que não seja uma saudade apenas pessoal.” Não, Silvania, não é. É coletiva, é de um povo, e vai se perpetuar. Seu Dedé, figura emblemática na cidade, e a padaria de seu Dedé, lugar de memória coletiva, não são apenas uma saudade hoje. Muito menos deixaram de existir simplesmente. Estão perpetuados no imaginário e na memória de várias gerações de toda uma comunidade. Estão indelevelmente diluídos na nossa formação pessoal e social, fazem parte da nossa identidade varzeana, e nos irmanam.

 Normeide Rios


sábado, 23 de março de 2013

Sob o sol do meio dia


Acordou antes do raiar do sol, como de costume. Lavou o rosto na bacia esmaltada já desgastada pelo uso, escovou os dentes de cócoras no quintal, lavando a boca com a água da velha lata de óleo usada como caneco. Fez o café coado para o marido e os filhos que ainda dormiam, bebendo uns goles quentes enquanto ajeitava os teréns no alforje e tirava para fora o carrinho de mão. Sentou-se na pedra grande que servia de banco no quintal e desenrolou a faixa que protegia o ferimento no pé. A aparência não estava nada boa, constatou sob a luz bruxuleante do candeeiro, aquilo havia infeccionado e doía bastante. Talvez por causa da ferrugem que cobria a foice, causadora da chaga. Fez a limpeza do local, colocou mais um pouco do emplastro de folhagens e trocou as bandagens. Enfiar o pé na bota foi o mais difícil, mas suportou a dor.

Pensou no marido e na sua cansativa jornada de trabalho como oleiro, que durava desde o nascer até o pôr do sol. Era escuro ainda quando ele saía em seu passo arrastado todos os dias e se dirigia para a olaria que ficava nas proximidades do povoado e só retornava quando o escuro da noite já se anunciava novamente. Por isso hoje, no domingo, único dia de descanso do coitado, nem passou pela sua cabeça acordá-lo para colher as verduras em seu lugar, o que pouparia um pouco o seu pé machucado. 

Quando saiu do povoado e pegou a estrada de cascalho, o sol começava a surgir no horizonte. Esse momento era só seu, espetáculo que enfeitava seus dias compridos e cansados e  suavizava a dureza da sua vida. Por vezes parava para apreciar mais detidamente essa obra da natureza que era o nascer do sol, a majestade dos traços e cores que se desenhavam no céu enquanto o sol aparecia lentamente.

Não era dada a rezas e preces, mas nesses momentos sentia tal comoção que bem rezaria um padre nosso se tivesse tempo. Mas a lida a chamava e o sol logo, logo estaria muito quente, era preciso pressa, para voltar cedo com o carrinho cheio das verduras que venderia de porta em porta, a freguesia já esperando. E o pé, doendo daquele jeito, quase insuportável.

Os cuidados com a plantação também eram tarefa sua. Por isso, todos os dias pegava a estrada em direção ao pequeno sítio que garantia quase todo o sustento da família e onde moraram por muitos anos, até a idade escolar dos meninos. Mudaram-se para o povoado de comum acordo. Ela e o marido entendiam que os filhos precisavam estudar para ter um futuro melhor do que o deles, para não penar a mesma sina de vida difícil e trabalho pesado.

O ferimento no pé, dolorido e inflamado, reforçou essa certeza. Por várias vezes pensou em tirar a bota para aliviar a dor. Se não o fazia era por medo de cobras, que abundavam naquela região. Era uma mulher corajosa e enfrentava sem temor qualquer perigo ou obstáculo. Mas, cobras não. Criaturas repulsivas, com aquele ar traiçoeiro, só de pensar tinha calafrios na espinha e suores nas mãos. Desde pequena era assim, apesar dos ensinamentos da mãe: ‘Sinhá, cobra também é criatura de Deus, não é malvada, só ataca se for ameaçada.’ Qual nada! E aqueles olhos maléficos?

O sol hoje estava no ponto, nem tão quente que ardesse na pele, nem tão frio que não aquecesse os ossos. Em dias assim, Dona Sinhá quase sentia alegria. O trabalho parecia mais leve, as mãos eram mais ágeis e o fardo menos pesado. Lembrou que precisava experimentar uma nova semente de coentro, um tipo mais graúdo e volumoso, que Dona Martina havia trazido para ela de uma viagem que fizera à casa de parentes na capital.

Estava distraída levando o carrinho cheio de alfaces e cebolinhas para o canteiro dos coentros quando de repente parou estarrecida – Deus céu! – lá estava ela! uma  cobra coral tranquilamente tomando sol no terreiro. E agora? Não sabia o que fazer, já estava muito perto. Primeiro quis correr, mas as pernas não obedeciam. Depois pensou em ficar quieta e imóvel até a maldita resolver ir embora. O suor escorria pelo rosto e pescoço, apesar do frescor do dia. Então, uma ideia instintiva brotou em sua mente paralisada. O carrinho de mão estava ali na sua frente. Bastaria empurrá-lo na direção da serpente, forçando o pneu de madeira sobre seu espinhaço. Entre pensar e agir passou uma eternidade.

Finalmente, segurou firmemente o carrinho e levantou a parte traseira. Então uma voz surgiu lá do passado e se fez pesar sobre a sua consciência: ‘cobra é criatura de Deus, Sinhá.’ Nesse meio tempo de hesitação, um pé de alface rolou para a frente do carrinho inclinado e caiu sobre a coral, que num serpenteio rápido e fugidio enveredou-se pelos arbustos que ladeavam o oitão da casa. Com passos vacilantes e armada com uma pedra e um porrete, vasculhou as proximidades do lugar, buscando ter certeza que a cobra se fora, que enveredara pelo mato.

Passado o susto, Dona Sinhá voltou aos coentros, não sem cautelas preventivas, um olho no canteiro e outro nos arbustos por onde a cobra sumira. Aos poucos foi sossegando e voltando a se concentrar no trabalho, gostando do que fazia, inebriando-se do cheiro dos coentros verdinhos e frescos, e voltando a se sentir quase alegre. Se não fosse a ferida no pé, que agora latejava como se fervesse... Parecia que o pé crescera dentro da bota.

Acabou a colheita, limpou e ajeitou no alforje os instrumentos de trabalho, bebeu um gole de água da velha cabaça e resolveu abrir mais uma vez os curativos para ver a ferida. Temia não agüentar andar todo o percurso de volta ao povoado.

Deu a volta pela lateral da casa mancando, pensando que talvez tivesse que improvisar uma muleta. Sentou-se no velho tronco debaixo do pé de gameleira da frente da casa e tirou a bota, sentindo um pequeno alívio. Olhou em volta cuidadosamente para se certificar que a coral não estava por ali. Removeu as bandagens e examinou a ferida. Alcançou a cabaça e derramou água fresca na velha cuia que usava para lavar-se. Mergulhou o pé nesse refrigério molhado até que a ferida estivesse toda coberta.

Assim permaneceu por muito tempo, olhos fechados, recostada no tronco da gameleira. Adormeceu, braços pendidos, para acordar assustada com a fisgada na mão esquerda apoiada no chão. Num pulo, pôs-se de pé e sentiu o peso na mão – minha nossa! era a coral! Pai do céu! A coral estava grudada em sua mão! – Sacudiu freneticamente, desesperada, gritando, até a cobra cair. Nem tanto o veneno, mas a certeza do ocorrido turvou suas vistas e ela se sentou petrificada. Não conseguia se mexer. A cobra sumira novamente.

Algum tempo depois, não saberia precisar quanto, levantou-se, sabia que precisava buscar ajuda. Deu alguns passos vacilantes e trôpegos, não conseguia apoiar o pé no chão. Alcançou a porteira, quase rastejando. Se conseguisse chegar à estrada de cascalho, talvez conseguisse ajuda. Talvez, se alguém passasse a tempo.

Sentia que o seu peito estava sendo oprimido, a passagem do ar bloqueada, como se o peso de uma tonelada a impedisse de respirar. Prostrou-se de joelhos, o corpo todo em um estado letárgico. Lágrimas de desespero lhe vieram aos olhos. Não queria morrer! Deus... não queria morrer ali, sozinha. O que seria dos filhos, ainda tão pequenos? E o marido, como daria conta de tanta coisa sozinho? Senhor, não podia morrer!

Reuniu o pouco de força que lhe restava e rastejou mais alguns metros, ferindo as mãos nos pedregulhos e espinhos do chão. De repente deu-se conta que não sentia mais o pé doente. Não, não sentia mais o corpo inteiro, apenas aquela dor queimando no peito, os pulmões oprimidos buscando desesperadamente um resquício de ar. Caiu de bruços, sem forças a alguns passos do local onde a coral tranquilamente tomava sol.

Os tons avermelhados e tremeluzentes da pele da coral confundiam-se com o sol escaldante que agora feria seu corpo, cúmplices, cobra e sol, em roubar-lhe a energia vital. A cobra moveu-se preguiçosamente em sua direção, criando movimentos ondulantes e irisados, flutuando em meio às ondas de calor que baixavam na terra. E a última coisa que os olhos turvos de Dona Sinhá viram foi o olhar maléfico da cobra em meio ao colorido ofuscante sob o sol do meio dia.

Normeide Rios 

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Os caminhos da literatura infantojuvenil baiana



Os caminhos da literatura infanto-juvenil baiana: em sintonia com o leitor traça a trajetória da literatura para crianças e jovens produzidas por escritores baianos nos últimos quarenta anos, preenchendo uma lacuna causada pela inexistência de estudos na área. Para isso, refaz o caminho histórico da literatura infanto-juvenil desde os primórdios europeus até as produções brasileiras contemporâneas, inserindo nesse contexto as obras baianas.

Este livro orienta o olhar para a qualidade literária das obras estudadas ao analisar a relação que textos e autores estabelecem com o leitor, criança e jovem, tanto no momento da produção – considerando e tematizando o universo infanto-juvenil – como no momento da recepção – proporcionando uma relação interativa entre leitor e texto.

É um livro para pesquisadores, educadores e todos que se interessam pela literatura infanto-juvenil, especialmente para professores e alunos dos cursos de Letras e Pedagogia, para professores do ensino fundamental e promotores de leitura.



segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Dois amores



Uma década e meia atrás, quando saí da pacata Várzea da Roça e vim morar em Feira de Santana, um amigo me disse: eu sempre soube que você não tinha recheio varzeano, você é de outros lugares. Na época, jovem interiorana de cidade muito pequena, e com poucas oportunidades, e muito empolgada com as possibilidades que a ‘cidade grande’ me oferecia, concordei. E por alguns anos, acreditei mesmo nisso, me convenci que eu não era dali, apenas lá havia nascido. Detalhe importante é que esse amigo que me disse isso não era varzeano, morava na nossa cidadezinha há apenas alguns anos.

Hoje, 15 anos tendo se passado, descubro-me pensando no tal ‘recheio varzeano’. O que vem mesmo a ser isso, que na opinião do meu amigo eu nunca tivera? Para encontrar a resposta, preciso analisar o meu recheio: de que ele é feito?

Encontro nele um amor enorme por Feira de Santana, cidade pela qual me apaixonei no primeiro dia em que por aqui passei, em 1985, indo para a Ilha de Itaparica, na excursão da 8ª série. Era domingo e atravessamos o centro da cidade de ônibus, a galerinha na maior muvuca e eu em estado de êxtase, alheia a tudo dentro do ônibus, olhos parados na Avenida Getúlio Vargas, presa por não sei quais fios invisíveis àquelas ruas desertas de final de tarde domingueiro. Fui capturada.

Encontro no meu recheio, o retorno a essa cidade do coração, dessa vez para morar, treze anos depois. E a vida que construí aqui, os amigos conquistados e que me conquistaram, colegas de trabalho, o crescimento dos meus filhos, seus estudos e, gradativamente, seus encaminhamentos no mundo do trabalho. Aqui nasceu minha caçula, hoje com cinco anos. Aqui construí minha vida profissional. E estudei, continuo estudando, o que sempre quis fazer.

Mas, olha lá, vejo Várzea da Roça no meu recheio! Sim, minha cidadezinha também me preenche. E não é com uma parcela mínima não. Existe muito de Várzea em mim. Vejo minhas primeiras descobertas, meus primeiros aprendizados, minha família, meu primeiro amor, as primeiras e mais sinceras amizades. Vejo minha infância de menina levada que subia em árvore, tomava banho em lagoas, jogava futebol e ganhava dos meninos no jogo de bolinha de gude. Mas vejo também a aluna disciplinada e estudiosa. Nessa cidadezinha nasci, cresci, me casei, e nasceram meus três primeiros filhos. Nessa cidade iniciei minha vida profissional. Quantas pessoas especiais participaram desse pedaço da minha história? Muitas.

Moro em Feira de Santana e tenho raízes plantadas em Várzea da Roça. Essas duas cidades me habitam, me formam, me ‘recheiam’. Hoje posso responder ao meu amigo com segurança: sim, eu tenho recheio varzeano e tenho orgulho disso. O que talvez faça a diferença, e que pode ter sido confundido com ausência de, é que esse recheio pede outros recheios, outros conhecimentos, outras vivências. Sempre tive a necessidade de buscar outros horizontes, de ampliar minhas fronteiras. 

 Normeide Rios


sábado, 9 de fevereiro de 2013

História de uma princesa



Nasci em berço agreste, na Fazenda Sant’Anna dos Olhos D’Água, no sertão baiano.  Em volta desse meu berço, foram se agrupando viajantes e tropeiros, que vinham do alto sertão, e aqui se alojavam atraídos pelas feiras e pelo comércio de gado.
Com todo esse movimento no meu entorno, cresci e me desenvolvi rapidamente e logo já contava com muitas lojas e casas comerciais. Era a estrada das boiadas anunciando uma nova civilização. Hoje, sou um grande centro comercial e meu comércio de importados, o Feiraguai, é muito famoso.
Trago em mim as marcas da história do Brasil-colônia e recebi a visita ilustre do Imperador D. Pedro II. Tempos depois, tornei-me princesa, a Princesa do Sertão.
Graciosa na forma geográfica plana, ocupo uma posição privilegiada, sendo um dos principais entroncamentos do Nordeste. Sou o Portal do Sertão. Nascida entre olhos d’água, o sol forte e o clima tropical e semi-árido não são páreos para os meus ricos mananciais, como as várias lagoas e rios.
Como jovem princesa, tenho minhas jóias, que são meus pontos turísticos: a Estátua do Vaqueiro; o Museu Casa do Sertão; o moderníssimo Museu Parque do Saber; a Igreja Senhor dos Passos, em estilo neo-gótico; o Observatório Astronômico Antares; o Estádio Jóia da Princesa e muito mais.

Outras riquezas, meus filhos ilustres, entre eles os poetas Godofredo Filho e Eurico Alves, o artista plástico Juraci Dórea, a heroína Maria Quitéria, meu povo acolhedor e caloroso.
Minha população de cerca de seiscentos mil habitantes é miscigenada e oriunda de várias cidades da Bahia e do país, o que me confere um muticulturalismo riquíssimo. A alegria e festividade do meu povo se manifestam na tradicional Micareta, carnaval fora de época que atrai muitos turistas.
Mais jóias: a TV Subaé, a Universidade Estadual de Feira de Santana e o Centro Industrial Subaé.
Sou uma jovem princesa de apenas 179 anos e estou em pleno desenvolvimento.

 Normeide Rios