A
casa da professora ficava no final da rua larga e arborizada. O muro alto
preservava o interior de olhares indiscretos e curiosos. O portão de ferro
chapado, sem nenhuma fresta, era cúmplice na proteção da privacidade. O pé de
buganvília recobria quase todo o muro com seus cachos fartos e floridos, agora
especialmente vistosos sob o sol ardente e brilhante do início da tarde. Uma
brisa brincalhona vez ou outra convidava os cachos para dançar. Era uma casa
imponente naquela rua de moradias modestas, muitas delas ainda em construção, em meio a lotes apenas demarcados com estacas e arame, à espera de que seus donos juntassem algum dinheiro para iniciar a construção. A cidade estava crescendo para aqueles lados.
Mesmo
antes de entrar, a menina sabia descrever o lado de dentro daquele muro cinza
grafite salpicado de verde e vermelho sangue das buganvílias. Vinha ali todos os dias após o almoço.
Gostava muito da professora e era correspondida nesse sentimento. Era uma aluna
aplicada, disciplinada, inteligente - adjetivos que a professora empregava sem
economia ao tomá-la como exemplo em seus sermões para convencer alunos displicentes
a se empenharem mais nos estudos.
A
primeira vez em que fora convidada pela professora para ir até a sua casa a
menina sentiu um certo orgulho, um que de superioridade diante dos colegas.
Gostou de se sentir preferida. Depois, esqueceu esse sentimento que foi logo
substituído pelo prazer gozado naquelas tardes mornas e paradas em uma casa
silenciosa e confortável, tão diferente do barraco onde vivia com a mãe e os
irmãos em escadinha, onde a algazarra, os gritos e choros compunham com a
miséria total.
Quando
as visitas começaram, espaçadas e rápidas, a mãe não se importou. À medida que
foram crescendo em frequência e duração, a mãe desfiava seu rosário de
reclamações por contar cada vez menos com a ajuda da filha mais velha nas
tarefas cotidianas. Lavava roupas para fora e vendia cocadas nos dias de feira
livre. Marido nunca tivera, os filhos nascendo um após o outro e se criando
sozinhos. Apesar das reclamações, não proibia as visitas porque acabavam sempre
rendendo alguma doação benevolente da professora que nunca deixava a menina
voltar para casa de mãos vazias.
Um
dia, subitamente, a mãe parou de reclamar, chegando mesmo a incentivar as
visitas, que passaram a ser diárias. Justificou a mudança de atitude dizendo
que essa amizade com uma ‘pessoa de destaque’ como a professora era muito
importante para o futuro da filha.
-
Ela pode lhe ajudar a ser alguém na vida. Vai poder se formar e ter uma
profissão.
Ademais,
se não conseguisse chegar a tanto, a ajuda que recebia com a doação de
alimentos e, esporadicamente, uma roupa nova, era melhor do que nada, disse
encerrando o assunto e selando a permissão.
A
aceitação da mãe tornou as visitas mais prazerosas. A menina libertou-se de um
certo sentimento de culpa por querer fugir todos os dias da miséria familiar
para o paraíso alheio. Além da televisão, do computador e dos lanches fartos,
amava a biblioteca repleta de livros maravilhosos, ilustrados, coloridos. Era
aí que passava a maior parte do tempo, para deleite da professora que gostava
de vê-la compenetrada na leitura.
A
professora não tinha filhas, frustração que acalentava no escondido. Do seu
casamento de vinte anos, nascera-lhe apenas um menino, hoje um robusto rapaz de
quatorze anos. O que tinha de robusto tinha de rebelde e enfezado. Nada herdara
da gentileza e benevolência da mãe. Por outro lado, era uma espécie de
miniatura do pai, na truculência, na grosseria e no físico avantajado. Aliás,
era um mistério para a cidadezinha como uma pessoa tão benévola e gentil como a
professora pode ter como marido um brutamonte brigão e mal encarado como aquele
bon vivant. Sim, porque o marido da
professora não trabalhava, vivia de bar em bar, de farra em farra e, não raro,
sumia por muitos dias não se sabe para onde. O mistério dessa união, no
entanto, se perdia no passado e em terras distantes, já que o casal morava ali
há apenas alguns anos.
O
menino tinha uma preferência declarada pela companhia do pai, o que muito
atormentava a mãe que, em seu silêncio resignado, aceitava. Já havia desistido
de despertar nele o gosto pelos estudos e o amor aos livros e às artes. Assim
como o pai, era avesso a qualquer atividade intelectual ou mais calma. Gostava
mesmo era da rua, do movimento, das confusões.
Quanto
mais o tempo passava, mais a professora sentia que amava aquela menina como a
uma filha. A frequência dos encontros e a companhia compartilhada estreitaram
os laços afetivos entre elas. Já não se surpreendia quando se percebia traçando
planos para o seu futuro. A menina sentia todo o calor e sinceridade desse amor
e gostava. Gostava da professora, gostava da casa, gostava dos livros. Tudo
seria perfeito se não fosse por algo que a incomodava: tinha aversão ao menino
e ao seu pai. Sentia calafrios quando a encaravam como se fosse um inseto
insignificante.
E
foi assim por muito tempo, até que as coisas começaram a mudar. Aos poucos, o
pai começou a se aproximar, puxar conversa, oferecer doces, fazer mimos.
Perguntava sobre a mãe da menina, se conhecia o pai, como faziam para
sobreviver, se não faltava nada para o sustento de tantas crianças. Em alguns
desses momentos até entregava algum dinheiro para a menina levar para a mãe.
- É
para ajudar a sustentar seus irmãos, tome, leve para sua mãe e diga que eu
mandei.
A
menina pressentia algum tipo de perigo. Aos calafrios juntara-se uma mistura de
terror e asco. Só não foi capaz de perceber a coincidência das duas mudanças:
na mesma época em que sua mãe passou a permitir e até a incentivar as visitas
diárias, o marido da professora subitamente foi tomado por rompantes de
gentileza.
A
professora também notou a mudança de atitude do marido, ao contrário do que
acontecia com a menina, isso a alegrou. Intimamente acalentava um sonho e
esperava o momento certo para partilhar com o companheiro. Agora ao notar os
olhares (que interpretava como afetivos), as gentilezas, os cuidados que ele
dispensava à garota, seu coração enchia-se de esperança. Mais algum tempo e já
poderia compartilhar com ele o seu projeto de cuidar legalmente da garota, que
já era considerada por ela como uma filha. E, se a mãe permitisse, traria a
menina para morar definitivamente com a sua família.
O
rapaz, parecendo alheio a tudo isso, mantinha-se calado e distante. Apesar
disso, a menina já o surpreendera algumas vezes olhando-a de um modo diferente.
Alguma coisa nesse olhar a incomodava, mas não sabia ao certo o que era. Aquele
era um olhar estranho, incandescente e que expressava algo que ela não
identificava, mas sabia, intuitivamente, que não era bom. Por sorte, pai e
filho quase não paravam em casa, e a menina considerava esses dias um oásis de
paz.
Naquela
tarde, enquanto se dirigia para a casa da professora, a menina estava feliz.
Sabia que o pai e o rapaz não estariam em casa, haviam viajado juntos. Em dias
assim, quando tinha a certeza dessa ausência, sentia-se totalmente livre, plena
de alegria. Tão leve que poderia dançar ao vento como os cachos de buganvília.
Achou estranho que o portão estivesse destrancado, mas pensou que a professora,
sabendo da sua vinda certa, o tivesse deixado entreaberto para não ter que vir
destrancá-lo. Talvez estivesse ocupada com algum afazer que a impossibilitasse
de parar para abrir o portão.
Entrou,
fechou cuidadosamente o portão e adentrou a casa com a intimidade de quem já se
sente parte daquele lugar. Na sala vazia a TV estava ligada, o que também era
incomum. Chamou, mas não obteve resposta. Dirigiu-se para a cozinha, passando
primeiro pela copa onde havia dois pratos sobre a mesa. A visão dos pratos
trouxe à sua espinha o velho e conhecido calafrio, mas logo se tranquilizou ao
lembrar que seus causadores não estavam na casa. Provavelmente a professora
havia recebido alguém para o almoço.
A
cozinha em desordem também não era habitual. Foi até a porta que dava para o
quintal e chamou mais uma vez. Nada. Só o cachorro, que passava o dia preso na
corrente e era solto à noite para proteger a casa, estava ali. Fez uma festinha
em sua cabeça e voltou-se para o interior. Resolveu esperar na sala. A
professora poderia ter saído até um lugar próximo, para voltar logo. Talvez por
isso a TV estivesse ligada e o portão estivesse aberto; ela sabia que a menina
não demoraria a chegar. Começou a brincar com o controle remoto, mudando os canais
por pura diversão. Achava isso o máximo. Os minutos passavam e a menina
sentiu-se inquieta.
Foi
até a biblioteca e começou a percorrer os títulos com os olhos. Escolheu um
livro e estirou-se no confortável sofá para ler. Era um dos seus títulos
preferidos, mas estava agitada demais para conseguir se concentrar. Foi até a
janela e olhou para o pequeno jardim onde o tempo parecia parado, tudo muito
quieto. A tarde carregava um silêncio pesado demais, pensou a menina. Aquela
quietude toda tinha algo de mórbido. De
repente sentiu-se congelar, uma ideia nada boa passando pela cabeça: e se
tivesse acontecido algo terrível com a professora? E se ela estivesse caída em
algum canto da casa, passando mal, ferida ou... morta?
Saiu
do torpor e correu em direção aos quartos, o coração aos pulos. O primeiro era
o quarto do rapaz, que estava vazio, mas estranhamente bagunçado, como se seu
dono estivesse em casa. O próximo era o quarto de hóspedes, onde costumava
tirar uma soneca quando estava muito cansada. Nada ali também. Deu dois passos
para trás, fechou a porta e virou-se em direção ao quarto do casal. Sentiu-se
presa ao chão, sem coragem de continuar. A porta estava fechada, como sempre.
Este era o único lugar da casa onde nunca ousara entrar. Algo a impedia, uma
certa sensação inexplicável de perigo. Mas precisava vencer o medo que a
imobilizava. A professora poderia estar lá dentro precisando da sua ajuda.
Deu
dois passos de chumbo e parou, chamando mais uma vez com voz trêmula. O
silêncio que se seguiu foi ficando insuportavelmente tenso. Chegou diante da
porta e colou o ouvido, buscando escutar alguma coisa. Pensou ouvir o som de
alguém respirando ou ressonando. Desarmou-se. Que boba que tinha sido! A
professora deveria estar dormindo. Claro! Devia ter deitado após o almoço e foi
vencida pelo cansaço, afinal era sexta-feira.
Abriu
a porta devagar tentando observar pela fresta, apenas para ter certeza. O
aposento estava na penumbra, as cortinas escuras fechadas, obstruindo a
passagem da luz que brilhava lá fora. Não viu a cama, abriu um pouco mais para
ter uma visão ampla do quarto. Ao localizar a cama, nova surpresa: a professora
não estava ali. Aliás, a cama estava impecavelmente arrumada. Escancarou a
porta, novamente apreensiva, e entrou. Chamou mais uma vez com voz trêmula.
Pensou
ter ouvido alguma coisa no banheiro privativo e correu para lá. Antes de abrir
a porta, percebeu um movimento atrás de si. Virou-se instintivamente e sentiu o
sangue fugir das veias. Parado no meio do quarto com aquele olhar estranho e
incandescente estava o filho da professora. Peito nu, sem camisa, calça
desabotoada, braguilha aberta. E avançava em sua direção. Aterrorizada, a
menina deu um passo para trás. Esbarrou em alguém. Não precisou voltar-se para
saber de quem se tratava ao ouvir uma voz cavernosa, forçosamente gentil:

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