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quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Seja boazinha



A casa da professora ficava no final da rua larga e arborizada. O muro alto preservava o interior de olhares indiscretos e curiosos. O portão de ferro chapado, sem nenhuma fresta, era cúmplice na proteção da privacidade. O pé de buganvília recobria quase todo o muro com seus cachos fartos e floridos, agora especialmente vistosos sob o sol ardente e brilhante do início da tarde. Uma brisa brincalhona vez ou outra convidava os cachos para dançar. Era uma casa imponente naquela rua de moradias modestas, muitas delas ainda em construção, em meio a lotes apenas demarcados com estacas e arame, à espera de que seus donos juntassem algum dinheiro para iniciar a construção. A cidade estava crescendo para aqueles lados.
Mesmo antes de entrar, a menina sabia descrever o lado de dentro daquele muro cinza grafite salpicado de verde e vermelho sangue das buganvílias.  Vinha ali todos os dias após o almoço. Gostava muito da professora e era correspondida nesse sentimento. Era uma aluna aplicada, disciplinada, inteligente - adjetivos que a professora empregava sem economia ao tomá-la como exemplo em seus sermões para convencer alunos displicentes a se empenharem mais nos estudos.
A primeira vez em que fora convidada pela professora para ir até a sua casa a menina sentiu um certo orgulho, um que de superioridade diante dos colegas. Gostou de se sentir preferida. Depois, esqueceu esse sentimento que foi logo substituído pelo prazer gozado naquelas tardes mornas e paradas em uma casa silenciosa e confortável, tão diferente do barraco onde vivia com a mãe e os irmãos em escadinha, onde a algazarra, os gritos e choros compunham com a miséria total.
Quando as visitas começaram, espaçadas e rápidas, a mãe não se importou. À medida que foram crescendo em frequência e duração, a mãe desfiava seu rosário de reclamações por contar cada vez menos com a ajuda da filha mais velha nas tarefas cotidianas. Lavava roupas para fora e vendia cocadas nos dias de feira livre. Marido nunca tivera, os filhos nascendo um após o outro e se criando sozinhos. Apesar das reclamações, não proibia as visitas porque acabavam sempre rendendo alguma doação benevolente da professora que nunca deixava a menina voltar para casa de mãos vazias.
Um dia, subitamente, a mãe parou de reclamar, chegando mesmo a incentivar as visitas, que passaram a ser diárias. Justificou a mudança de atitude dizendo que essa amizade com uma ‘pessoa de destaque’ como a professora era muito importante para o futuro da filha.
- Ela pode lhe ajudar a ser alguém na vida. Vai poder se formar e ter uma profissão.
Ademais, se não conseguisse chegar a tanto, a ajuda que recebia com a doação de alimentos e, esporadicamente, uma roupa nova, era melhor do que nada, disse encerrando o assunto e selando a permissão.
A aceitação da mãe tornou as visitas mais prazerosas. A menina libertou-se de um certo sentimento de culpa por querer fugir todos os dias da miséria familiar para o paraíso alheio. Além da televisão, do computador e dos lanches fartos, amava a biblioteca repleta de livros maravilhosos, ilustrados, coloridos. Era aí que passava a maior parte do tempo, para deleite da professora que gostava de vê-la compenetrada na leitura.
A professora não tinha filhas, frustração que acalentava no escondido. Do seu casamento de vinte anos, nascera-lhe apenas um menino, hoje um robusto rapaz de quatorze anos. O que tinha de robusto tinha de rebelde e enfezado. Nada herdara da gentileza e benevolência da mãe. Por outro lado, era uma espécie de miniatura do pai, na truculência, na grosseria e no físico avantajado. Aliás, era um mistério para a cidadezinha como uma pessoa tão benévola e gentil como a professora pode ter como marido um brutamonte brigão e mal encarado como aquele bon vivant. Sim, porque o marido da professora não trabalhava, vivia de bar em bar, de farra em farra e, não raro, sumia por muitos dias não se sabe para onde. O mistério dessa união, no entanto, se perdia no passado e em terras distantes, já que o casal morava ali há apenas alguns anos.
O menino tinha uma preferência declarada pela companhia do pai, o que muito atormentava a mãe que, em seu silêncio resignado, aceitava. Já havia desistido de despertar nele o gosto pelos estudos e o amor aos livros e às artes. Assim como o pai, era avesso a qualquer atividade intelectual ou mais calma. Gostava mesmo era da rua, do movimento, das confusões.
Quanto mais o tempo passava, mais a professora sentia que amava aquela menina como a uma filha. A frequência dos encontros e a companhia compartilhada estreitaram os laços afetivos entre elas. Já não se surpreendia quando se percebia traçando planos para o seu futuro. A menina sentia todo o calor e sinceridade desse amor e gostava. Gostava da professora, gostava da casa, gostava dos livros. Tudo seria perfeito se não fosse por algo que a incomodava: tinha aversão ao menino e ao seu pai. Sentia calafrios quando a encaravam como se fosse um inseto insignificante.
E foi assim por muito tempo, até que as coisas começaram a mudar. Aos poucos, o pai começou a se aproximar, puxar conversa, oferecer doces, fazer mimos. Perguntava sobre a mãe da menina, se conhecia o pai, como faziam para sobreviver, se não faltava nada para o sustento de tantas crianças. Em alguns desses momentos até entregava algum dinheiro para a menina levar para a mãe.
- É para ajudar a sustentar seus irmãos, tome, leve para sua mãe e diga que eu mandei.
A menina pressentia algum tipo de perigo. Aos calafrios juntara-se uma mistura de terror e asco. Só não foi capaz de perceber a coincidência das duas mudanças: na mesma época em que sua mãe passou a permitir e até a incentivar as visitas diárias, o marido da professora subitamente foi tomado por rompantes de gentileza.
A professora também notou a mudança de atitude do marido, ao contrário do que acontecia com a menina, isso a alegrou. Intimamente acalentava um sonho e esperava o momento certo para partilhar com o companheiro. Agora ao notar os olhares (que interpretava como afetivos), as gentilezas, os cuidados que ele dispensava à garota, seu coração enchia-se de esperança. Mais algum tempo e já poderia compartilhar com ele o seu projeto de cuidar legalmente da garota, que já era considerada por ela como uma filha. E, se a mãe permitisse, traria a menina para morar definitivamente com a sua família.
O rapaz, parecendo alheio a tudo isso, mantinha-se calado e distante. Apesar disso, a menina já o surpreendera algumas vezes olhando-a de um modo diferente. Alguma coisa nesse olhar a incomodava, mas não sabia ao certo o que era. Aquele era um olhar estranho, incandescente e que expressava algo que ela não identificava, mas sabia, intuitivamente, que não era bom. Por sorte, pai e filho quase não paravam em casa, e a menina considerava esses dias um oásis de paz.
Naquela tarde, enquanto se dirigia para a casa da professora, a menina estava feliz. Sabia que o pai e o rapaz não estariam em casa, haviam viajado juntos. Em dias assim, quando tinha a certeza dessa ausência, sentia-se totalmente livre, plena de alegria. Tão leve que poderia dançar ao vento como os cachos de buganvília. Achou estranho que o portão estivesse destrancado, mas pensou que a professora, sabendo da sua vinda certa, o tivesse deixado entreaberto para não ter que vir destrancá-lo. Talvez estivesse ocupada com algum afazer que a impossibilitasse de parar para abrir o portão.
Entrou, fechou cuidadosamente o portão e adentrou a casa com a intimidade de quem já se sente parte daquele lugar. Na sala vazia a TV estava ligada, o que também era incomum. Chamou, mas não obteve resposta. Dirigiu-se para a cozinha, passando primeiro pela copa onde havia dois pratos sobre a mesa. A visão dos pratos trouxe à sua espinha o velho e conhecido calafrio, mas logo se tranquilizou ao lembrar que seus causadores não estavam na casa. Provavelmente a professora havia recebido alguém para o almoço.
A cozinha em desordem também não era habitual. Foi até a porta que dava para o quintal e chamou mais uma vez. Nada. Só o cachorro, que passava o dia preso na corrente e era solto à noite para proteger a casa, estava ali. Fez uma festinha em sua cabeça e voltou-se para o interior. Resolveu esperar na sala. A professora poderia ter saído até um lugar próximo, para voltar logo. Talvez por isso a TV estivesse ligada e o portão estivesse aberto; ela sabia que a menina não demoraria a chegar. Começou a brincar com o controle remoto, mudando os canais por pura diversão. Achava isso o máximo. Os minutos passavam e a menina sentiu-se inquieta.
Foi até a biblioteca e começou a percorrer os títulos com os olhos. Escolheu um livro e estirou-se no confortável sofá para ler. Era um dos seus títulos preferidos, mas estava agitada demais para conseguir se concentrar. Foi até a janela e olhou para o pequeno jardim onde o tempo parecia parado, tudo muito quieto. A tarde carregava um silêncio pesado demais, pensou a menina. Aquela quietude toda tinha algo de mórbido.  De repente sentiu-se congelar, uma ideia nada boa passando pela cabeça: e se tivesse acontecido algo terrível com a professora? E se ela estivesse caída em algum canto da casa, passando mal, ferida ou... morta?
Saiu do torpor e correu em direção aos quartos, o coração aos pulos. O primeiro era o quarto do rapaz, que estava vazio, mas estranhamente bagunçado, como se seu dono estivesse em casa. O próximo era o quarto de hóspedes, onde costumava tirar uma soneca quando estava muito cansada. Nada ali também. Deu dois passos para trás, fechou a porta e virou-se em direção ao quarto do casal. Sentiu-se presa ao chão, sem coragem de continuar. A porta estava fechada, como sempre. Este era o único lugar da casa onde nunca ousara entrar. Algo a impedia, uma certa sensação inexplicável de perigo. Mas precisava vencer o medo que a imobilizava. A professora poderia estar lá dentro precisando da sua ajuda.
Deu dois passos de chumbo e parou, chamando mais uma vez com voz trêmula. O silêncio que se seguiu foi ficando insuportavelmente tenso. Chegou diante da porta e colou o ouvido, buscando escutar alguma coisa. Pensou ouvir o som de alguém respirando ou ressonando. Desarmou-se. Que boba que tinha sido! A professora deveria estar dormindo. Claro! Devia ter deitado após o almoço e foi vencida pelo cansaço, afinal era sexta-feira.
Abriu a porta devagar tentando observar pela fresta, apenas para ter certeza. O aposento estava na penumbra, as cortinas escuras fechadas, obstruindo a passagem da luz que brilhava lá fora. Não viu a cama, abriu um pouco mais para ter uma visão ampla do quarto. Ao localizar a cama, nova surpresa: a professora não estava ali. Aliás, a cama estava impecavelmente arrumada. Escancarou a porta, novamente apreensiva, e entrou. Chamou mais uma vez com voz trêmula.
Pensou ter ouvido alguma coisa no banheiro privativo e correu para lá. Antes de abrir a porta, percebeu um movimento atrás de si. Virou-se instintivamente e sentiu o sangue fugir das veias. Parado no meio do quarto com aquele olhar estranho e incandescente estava o filho da professora. Peito nu, sem camisa, calça desabotoada, braguilha aberta. E avançava em sua direção. Aterrorizada, a menina deu um passo para trás. Esbarrou em alguém. Não precisou voltar-se para saber de quem se tratava ao ouvir uma voz cavernosa, forçosamente gentil:
- Seja boazinha!
                                                                                 Normeide Rios



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