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domingo, 24 de março de 2013

A padaria de seu Dedé


Recentemente Silvania Gomes postou no Facebook uma foto antiga da padaria do seu pai, em Várzea da Roça. A padaria de seu Dedé. Em poucos dias, a imagem ganhou uma repercussão muito grande, agregando varzeanos de todos os lugares, unindo no espaço virtual, do Facebook e da memória, pessoas que vivem na nossa cidade e pessoas que estão espalhadas pelo Brasil. Cada um buscou suas memórias da infância e adolescência, despertando lembranças pessoais várias.
Pães, biscoitos, cheiros, abelhas, tubaína, prosa, tudo acordado e presentificado. A padaria de seu Dedé, que não sei se tinha nome – e se tivesse para nós não importaria, pois seria sempre a “padaria de seu Dedé” –, atravessou gerações alimentando desejos, adocicando sonhos, perfumando a vida de todos os varzeanos. Padaria dotada de eternidade, sempre existiu, nascíamos e ela estava ali, nos esperando com seus pães alimentadores do corpo e da alma. Sim, porque a padaria de seu Dedé não só vendia pães para saciar a fome. Como brinde vinham os encontros, bate-papos, descanso, relaxamento. Se estávamos cansados, tristes, estressados, solitários, felizes, comemorativos, íamos à padaria de seu Dedé. Todos nós, como confirma Gardi Sales Sales: “Lembro tanto desse lugar, talvez o lugar que todos de Várzea lanchavam à tarde! E das abelhas... eram tantas.” Era o nosso point, o nosso mcdonalds. Como bem lembrou Rodrigo Rios, “a coisa mais chique que tinha na infância era comer um pão de doce e tomar uma tubaína na padaria de Seu Dedé.”
O sabor do melhor pão da cidade está na lembrança de inúmeras pessoas. Eram basicamente pão de sal, pão de leite e pão de doce. E cada um deles era o melhor. E haviam os biscoitos, os mais lembrados são o biscoito comum e o biscoito palito, este último perfeito com café puro, como disse Silvânia, vendidos a granel, pesados ali na hora, diante do freguês que dizia a medida, e sob os olhos cuidadosos de seu Dedé: “E pai sempre recomendava: " Presta atenção na balança, menina!", diz Silvania.
As combinações também eram uma marca, já que na padaria de seu Dedé não comprávamos apenas os pães e biscoitos para levar para casa, mas comíamos lá também. O pão de sal quentinho recebia a melhor manteiga da região e devorávamos ali mesmo com café ou tubaína. Dentre as combinações, uma se destaca, lembrada pelo Marcos Maia: o pão com rapadura. A rapadura era previamente cortada em pedaços e colocadas em frasqueiras. E as lembranças do paladar evocam outras memórias, a exemplo das doces lembranças familiares da Bianca Moreira, neta de seu Dedé, que embora muito pequenina quando se separou do avô, guardou bons momentos vividos: “Saudades de quando eu ficava sentada em cima do balcão comendo pão e biscoitos que minha vozinha e meu vozinho faziam.
Os pães da fornada da tarde eram os mais esperados. Antes mesmo de eles chegarem no balcão, um aglomerado de pessoas ia se formando na padaria ou na praça, esperando o pão quentinho. Muitas vezes, como lembra Vanuza Barreto, ficávamos impacientes e íamos encontrar o pão no caminho ou busca-los lá onde era feito. Isso porque o pão da padaria de seu Dedé não era feito no mesmo lugar onde era vendido. Os fornos ficavam na outra praça e, depois de assados, os pães eram levados em carrinhos até a padaria. O percurso feito pelos pães quentinhos, enchia a cidade de cheiros. Muitas pessoas, chamadas pela delícia olfativa, saíam de suas casas e paravam os carrinhos para comprar o pão ali na rua mesmo, como lembra Fabia Gomes. Isso atrasava a entrega e as pessoas que esperavam se impacientavam, ainda mais porque já sentiam o cheiro, que chegava antes dos pães, e era sempre preciso enviar alguém para apressar os entregadores. Os pães em seu percurso não atraíam apenas as pessoas, mas chamavam também um grande enxame de abelhas que disputava conosco aquela delícia doce e emprestava seus zumbidos para compor o fundo musical do momento.
Um aspecto importante dos fornos da padaria de seu Dedé, lembrado por Jeliane Pacheco, era o seu uso coletivo pela comunidade: “Eu lembro onde o pão era assado... Seu Dedé deixava a gente assar os bolos do colégio e da Igreja no lugar onde eram feitos os pães da padaria e aí eu ficava vendo as fornalhas de pão quentinhas saindo... Muitas lembranças com cheiro de simplicidade.” Após a feitura dos pães, qualquer um poderia assar bolos, biscoitos e outras guloseimas, desde que avisasse com antecedência e se responsabilizasse por fechar tudo e entregar a chave na padaria.
Abro um parêntesis para relembrar que a padaria de seu Dedé não foi sempre neste espaço registrado na foto, e não foi sempre a “padaria de seu Dedé”. Assim como todos nós, a padaria também tem uma história. Nasceu em espaço físico menor, esse o da minha infância, e era a “padaria de Dedé e Hermelino”. No meu imaginário infantil, Dedé e Hermelino fundiam-se em uma pessoa só. Lembro do grande balcão de madeira, simples e tosco, que abrigava os mais deliciosos pães e biscoitos. Os pães eram embalados em pedaços de papel de embrulho pardacentos. Eu, menina, ficava encantada e hipnotizada com a agilidade daqueles dedos fechando os pacotes, em movimentos precisos que uniam as duas pontas do papel em um arranjo artístico perfeito e seguro. Esses papéis, já em casa, tinham inúmeros outros reaproveitamentos. No meu caso, usava-os para desenhar e escrever.
Seu Dedé, figura magra, de óculos, meio drummond na aparência física, era um homem muito educado, prestativo, inteligente. Historiador, na nossa visão, sabia de cor e salteado a história do surgimento e crescimento de Várzea da Roça. Trabalho de escola sobre Várzea da Roça e região, sua economia, política, figuras históricas, flora e fauna, açudes e lagoas, população, já tinha fonte certa. Seu Dedé era nossa fonte de pesquisa. Até as professoras o procuravam para aumentar seus conhecimentos. Bom de papo, seu Dedé atraía também quem gostava de uma boa conversa, como disse Eliene Souza: “tenho também muita saudade do seu pai, todas as vezes que ia lá era aquela prosa!”
Silvânia Gomes, ao postar a foto, comenta “acredito que não seja uma saudade apenas pessoal.” Não, Silvania, não é. É coletiva, é de um povo, e vai se perpetuar. Seu Dedé, figura emblemática na cidade, e a padaria de seu Dedé, lugar de memória coletiva, não são apenas uma saudade hoje. Muito menos deixaram de existir simplesmente. Estão perpetuados no imaginário e na memória de várias gerações de toda uma comunidade. Estão indelevelmente diluídos na nossa formação pessoal e social, fazem parte da nossa identidade varzeana, e nos irmanam.

 Normeide Rios


sábado, 23 de março de 2013

Sob o sol do meio dia


Acordou antes do raiar do sol, como de costume. Lavou o rosto na bacia esmaltada já desgastada pelo uso, escovou os dentes de cócoras no quintal, lavando a boca com a água da velha lata de óleo usada como caneco. Fez o café coado para o marido e os filhos que ainda dormiam, bebendo uns goles quentes enquanto ajeitava os teréns no alforje e tirava para fora o carrinho de mão. Sentou-se na pedra grande que servia de banco no quintal e desenrolou a faixa que protegia o ferimento no pé. A aparência não estava nada boa, constatou sob a luz bruxuleante do candeeiro, aquilo havia infeccionado e doía bastante. Talvez por causa da ferrugem que cobria a foice, causadora da chaga. Fez a limpeza do local, colocou mais um pouco do emplastro de folhagens e trocou as bandagens. Enfiar o pé na bota foi o mais difícil, mas suportou a dor.

Pensou no marido e na sua cansativa jornada de trabalho como oleiro, que durava desde o nascer até o pôr do sol. Era escuro ainda quando ele saía em seu passo arrastado todos os dias e se dirigia para a olaria que ficava nas proximidades do povoado e só retornava quando o escuro da noite já se anunciava novamente. Por isso hoje, no domingo, único dia de descanso do coitado, nem passou pela sua cabeça acordá-lo para colher as verduras em seu lugar, o que pouparia um pouco o seu pé machucado. 

Quando saiu do povoado e pegou a estrada de cascalho, o sol começava a surgir no horizonte. Esse momento era só seu, espetáculo que enfeitava seus dias compridos e cansados e  suavizava a dureza da sua vida. Por vezes parava para apreciar mais detidamente essa obra da natureza que era o nascer do sol, a majestade dos traços e cores que se desenhavam no céu enquanto o sol aparecia lentamente.

Não era dada a rezas e preces, mas nesses momentos sentia tal comoção que bem rezaria um padre nosso se tivesse tempo. Mas a lida a chamava e o sol logo, logo estaria muito quente, era preciso pressa, para voltar cedo com o carrinho cheio das verduras que venderia de porta em porta, a freguesia já esperando. E o pé, doendo daquele jeito, quase insuportável.

Os cuidados com a plantação também eram tarefa sua. Por isso, todos os dias pegava a estrada em direção ao pequeno sítio que garantia quase todo o sustento da família e onde moraram por muitos anos, até a idade escolar dos meninos. Mudaram-se para o povoado de comum acordo. Ela e o marido entendiam que os filhos precisavam estudar para ter um futuro melhor do que o deles, para não penar a mesma sina de vida difícil e trabalho pesado.

O ferimento no pé, dolorido e inflamado, reforçou essa certeza. Por várias vezes pensou em tirar a bota para aliviar a dor. Se não o fazia era por medo de cobras, que abundavam naquela região. Era uma mulher corajosa e enfrentava sem temor qualquer perigo ou obstáculo. Mas, cobras não. Criaturas repulsivas, com aquele ar traiçoeiro, só de pensar tinha calafrios na espinha e suores nas mãos. Desde pequena era assim, apesar dos ensinamentos da mãe: ‘Sinhá, cobra também é criatura de Deus, não é malvada, só ataca se for ameaçada.’ Qual nada! E aqueles olhos maléficos?

O sol hoje estava no ponto, nem tão quente que ardesse na pele, nem tão frio que não aquecesse os ossos. Em dias assim, Dona Sinhá quase sentia alegria. O trabalho parecia mais leve, as mãos eram mais ágeis e o fardo menos pesado. Lembrou que precisava experimentar uma nova semente de coentro, um tipo mais graúdo e volumoso, que Dona Martina havia trazido para ela de uma viagem que fizera à casa de parentes na capital.

Estava distraída levando o carrinho cheio de alfaces e cebolinhas para o canteiro dos coentros quando de repente parou estarrecida – Deus céu! – lá estava ela! uma  cobra coral tranquilamente tomando sol no terreiro. E agora? Não sabia o que fazer, já estava muito perto. Primeiro quis correr, mas as pernas não obedeciam. Depois pensou em ficar quieta e imóvel até a maldita resolver ir embora. O suor escorria pelo rosto e pescoço, apesar do frescor do dia. Então, uma ideia instintiva brotou em sua mente paralisada. O carrinho de mão estava ali na sua frente. Bastaria empurrá-lo na direção da serpente, forçando o pneu de madeira sobre seu espinhaço. Entre pensar e agir passou uma eternidade.

Finalmente, segurou firmemente o carrinho e levantou a parte traseira. Então uma voz surgiu lá do passado e se fez pesar sobre a sua consciência: ‘cobra é criatura de Deus, Sinhá.’ Nesse meio tempo de hesitação, um pé de alface rolou para a frente do carrinho inclinado e caiu sobre a coral, que num serpenteio rápido e fugidio enveredou-se pelos arbustos que ladeavam o oitão da casa. Com passos vacilantes e armada com uma pedra e um porrete, vasculhou as proximidades do lugar, buscando ter certeza que a cobra se fora, que enveredara pelo mato.

Passado o susto, Dona Sinhá voltou aos coentros, não sem cautelas preventivas, um olho no canteiro e outro nos arbustos por onde a cobra sumira. Aos poucos foi sossegando e voltando a se concentrar no trabalho, gostando do que fazia, inebriando-se do cheiro dos coentros verdinhos e frescos, e voltando a se sentir quase alegre. Se não fosse a ferida no pé, que agora latejava como se fervesse... Parecia que o pé crescera dentro da bota.

Acabou a colheita, limpou e ajeitou no alforje os instrumentos de trabalho, bebeu um gole de água da velha cabaça e resolveu abrir mais uma vez os curativos para ver a ferida. Temia não agüentar andar todo o percurso de volta ao povoado.

Deu a volta pela lateral da casa mancando, pensando que talvez tivesse que improvisar uma muleta. Sentou-se no velho tronco debaixo do pé de gameleira da frente da casa e tirou a bota, sentindo um pequeno alívio. Olhou em volta cuidadosamente para se certificar que a coral não estava por ali. Removeu as bandagens e examinou a ferida. Alcançou a cabaça e derramou água fresca na velha cuia que usava para lavar-se. Mergulhou o pé nesse refrigério molhado até que a ferida estivesse toda coberta.

Assim permaneceu por muito tempo, olhos fechados, recostada no tronco da gameleira. Adormeceu, braços pendidos, para acordar assustada com a fisgada na mão esquerda apoiada no chão. Num pulo, pôs-se de pé e sentiu o peso na mão – minha nossa! era a coral! Pai do céu! A coral estava grudada em sua mão! – Sacudiu freneticamente, desesperada, gritando, até a cobra cair. Nem tanto o veneno, mas a certeza do ocorrido turvou suas vistas e ela se sentou petrificada. Não conseguia se mexer. A cobra sumira novamente.

Algum tempo depois, não saberia precisar quanto, levantou-se, sabia que precisava buscar ajuda. Deu alguns passos vacilantes e trôpegos, não conseguia apoiar o pé no chão. Alcançou a porteira, quase rastejando. Se conseguisse chegar à estrada de cascalho, talvez conseguisse ajuda. Talvez, se alguém passasse a tempo.

Sentia que o seu peito estava sendo oprimido, a passagem do ar bloqueada, como se o peso de uma tonelada a impedisse de respirar. Prostrou-se de joelhos, o corpo todo em um estado letárgico. Lágrimas de desespero lhe vieram aos olhos. Não queria morrer! Deus... não queria morrer ali, sozinha. O que seria dos filhos, ainda tão pequenos? E o marido, como daria conta de tanta coisa sozinho? Senhor, não podia morrer!

Reuniu o pouco de força que lhe restava e rastejou mais alguns metros, ferindo as mãos nos pedregulhos e espinhos do chão. De repente deu-se conta que não sentia mais o pé doente. Não, não sentia mais o corpo inteiro, apenas aquela dor queimando no peito, os pulmões oprimidos buscando desesperadamente um resquício de ar. Caiu de bruços, sem forças a alguns passos do local onde a coral tranquilamente tomava sol.

Os tons avermelhados e tremeluzentes da pele da coral confundiam-se com o sol escaldante que agora feria seu corpo, cúmplices, cobra e sol, em roubar-lhe a energia vital. A cobra moveu-se preguiçosamente em sua direção, criando movimentos ondulantes e irisados, flutuando em meio às ondas de calor que baixavam na terra. E a última coisa que os olhos turvos de Dona Sinhá viram foi o olhar maléfico da cobra em meio ao colorido ofuscante sob o sol do meio dia.

Normeide Rios