Recentemente Silvania Gomes postou no Facebook uma foto antiga
da padaria do seu pai, em Várzea da Roça. A padaria de seu Dedé. Em poucos
dias, a imagem ganhou uma repercussão muito grande, agregando varzeanos de
todos os lugares, unindo no espaço virtual, do Facebook e da memória, pessoas
que vivem na nossa cidade e pessoas que estão espalhadas pelo Brasil. Cada um
buscou suas memórias da infância e adolescência, despertando lembranças
pessoais várias.
Pães, biscoitos, cheiros, abelhas, tubaína, prosa, tudo
acordado e presentificado. A padaria de seu Dedé, que não sei se tinha nome – e
se tivesse para nós não importaria, pois seria sempre a “padaria de seu Dedé” –,
atravessou gerações alimentando desejos, adocicando sonhos, perfumando a vida
de todos os varzeanos. Padaria dotada de eternidade, sempre existiu, nascíamos
e ela estava ali, nos esperando com seus pães alimentadores do corpo e da alma.
Sim, porque a padaria de seu Dedé não só vendia pães para saciar a fome. Como brinde
vinham os encontros, bate-papos, descanso, relaxamento. Se estávamos cansados,
tristes, estressados, solitários, felizes, comemorativos, íamos à padaria de
seu Dedé. Todos nós, como confirma Gardi Sales Sales: “Lembro
tanto desse lugar, talvez o lugar que todos
de Várzea lanchavam à tarde! E das abelhas... eram tantas.” Era
o nosso point, o nosso mcdonalds. Como
bem lembrou Rodrigo Rios, “a coisa mais chique que tinha na infância era
comer um pão de doce e tomar uma tubaína na padaria de Seu Dedé.”
O sabor do melhor pão da cidade está na lembrança de inúmeras pessoas. Eram
basicamente pão de sal, pão de leite e pão de doce. E cada um deles era o
melhor. E haviam os biscoitos, os mais lembrados são o biscoito comum e o
biscoito palito, este último perfeito com café puro, como disse Silvânia, vendidos
a granel, pesados ali na hora, diante do freguês que dizia a medida, e sob os
olhos cuidadosos de seu Dedé: “E pai
sempre recomendava: " Presta atenção na balança, menina!",
diz Silvania.
As combinações também eram uma marca, já que na padaria de seu Dedé não
comprávamos apenas os pães e biscoitos para levar para casa, mas comíamos lá
também. O pão de sal quentinho recebia a melhor manteiga da região e
devorávamos ali mesmo com café ou tubaína. Dentre as combinações, uma se
destaca, lembrada pelo Marcos Maia: o pão com rapadura. A rapadura era previamente
cortada em pedaços e colocadas em frasqueiras. E as lembranças do paladar
evocam outras memórias, a exemplo das doces lembranças familiares da Bianca
Moreira, neta de seu Dedé, que embora muito pequenina quando se separou do avô,
guardou bons momentos vividos: “Saudades
de quando eu ficava sentada em cima do balcão comendo pão e biscoitos que minha
vozinha e meu vozinho faziam.”
Os pães da fornada da tarde eram
os mais esperados. Antes mesmo de eles chegarem no balcão, um aglomerado de
pessoas ia se formando na padaria ou na praça, esperando o pão quentinho.
Muitas vezes, como lembra Vanuza Barreto, ficávamos impacientes e íamos
encontrar o pão no caminho ou busca-los lá onde era feito. Isso porque o pão da
padaria de seu Dedé não era feito no mesmo lugar onde era vendido. Os fornos
ficavam na outra praça e, depois de assados, os pães eram levados em carrinhos
até a padaria. O percurso feito pelos pães quentinhos, enchia a cidade de
cheiros. Muitas pessoas, chamadas pela delícia olfativa, saíam de suas casas e
paravam os carrinhos para comprar o pão ali na rua mesmo, como lembra Fabia
Gomes. Isso atrasava a entrega e as pessoas que esperavam se impacientavam,
ainda mais porque já sentiam o cheiro, que chegava antes dos pães, e era sempre
preciso enviar alguém para apressar os entregadores. Os pães em seu percurso
não atraíam apenas as pessoas, mas chamavam também um grande enxame de abelhas
que disputava conosco aquela delícia doce e emprestava seus zumbidos para
compor o fundo musical do momento.
Um aspecto importante dos fornos
da padaria de seu Dedé, lembrado por Jeliane Pacheco, era o seu uso coletivo
pela comunidade: “Eu lembro onde o pão era assado... Seu Dedé deixava a gente
assar os bolos do colégio e da Igreja no lugar onde eram feitos os pães da
padaria e aí eu ficava vendo as fornalhas de pão quentinhas saindo... Muitas
lembranças com cheiro de simplicidade.” Após a feitura dos
pães, qualquer um poderia assar bolos, biscoitos e outras guloseimas, desde que
avisasse com antecedência e se responsabilizasse por fechar tudo e entregar a
chave na padaria.
Abro um
parêntesis para relembrar que a padaria de seu Dedé não foi sempre neste espaço
registrado na foto, e não foi sempre a “padaria de seu Dedé”. Assim como todos
nós, a padaria também tem uma história. Nasceu em espaço físico menor, esse o
da minha infância, e era a “padaria de Dedé e Hermelino”. No meu imaginário
infantil, Dedé e Hermelino fundiam-se em uma pessoa só. Lembro do grande balcão
de madeira, simples e tosco, que abrigava os mais deliciosos pães e biscoitos.
Os pães eram embalados em pedaços de papel de embrulho pardacentos. Eu, menina,
ficava encantada e hipnotizada com a agilidade daqueles dedos fechando os
pacotes, em movimentos precisos que uniam as duas pontas do papel em um arranjo
artístico perfeito e seguro. Esses papéis, já em casa, tinham inúmeros outros
reaproveitamentos. No meu caso, usava-os para desenhar e escrever.
Seu Dedé, figura
magra, de óculos, meio drummond na aparência física, era um homem muito
educado, prestativo, inteligente. Historiador, na nossa visão, sabia de cor e
salteado a história do surgimento e crescimento de Várzea da Roça. Trabalho de
escola sobre Várzea da Roça e região, sua economia, política, figuras
históricas, flora e fauna, açudes e lagoas, população, já tinha fonte certa.
Seu Dedé era nossa fonte de pesquisa. Até as professoras o procuravam para
aumentar seus conhecimentos. Bom de papo, seu Dedé atraía também quem gostava
de uma boa conversa, como disse Eliene Souza: “tenho
também muita saudade do seu pai, todas as vezes que ia lá era aquela prosa!”
Silvânia Gomes, ao postar a
foto, comenta “acredito que não seja uma saudade apenas pessoal.” Não,
Silvania, não é. É coletiva, é de um povo, e vai se perpetuar. Seu Dedé, figura
emblemática na cidade, e a padaria de seu Dedé, lugar de memória coletiva, não
são apenas uma saudade hoje. Muito menos deixaram de existir simplesmente.
Estão perpetuados no imaginário e na memória de várias gerações de toda uma
comunidade. Estão indelevelmente diluídos na nossa formação pessoal e social, fazem
parte da nossa identidade varzeana, e nos irmanam.
Normeide Rios
Normeide Rios

Emocionado com o texto! É assim que devemos ser lembrados, como seu Dedé, pela educação, pela simpatia, pelo compromisso, pelo servir, pelo bom papo, pela simplicidade, pelo bem...
ResponderExcluirSeu Dedé foi uma figura ímpar, desse tipo de pessoa que passa deixando marcas. E de forma simples, como você diz, Rodrigo. Apenas sendo gente do bem. Grande lição.
ExcluirMuito lindo seu texto. Lembrei-me de minha terra "Senhor do Bonfim", também tive a minha padaria, não de Seu Dedé, mas de meu avô e tios,viviamos tudo isto, e agora ao recordar sinto o cheio do pão quentinho, com a manteiga derretida e o café passado na hora. Que coisa boa!!! Inesquecíveis memporias, obrigada a você por me proporcioar este momento tão impar na minha vida...
ResponderExcluirPenso, Pety, que todas as cidadezinhas tem histórias, lugares e pessoas marcantes mais ou menos parecidas. E essas marcas nos formam. Que bom que meu texto acordou lembranças boas em você. Abraço, amiga.
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