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sábado, 23 de março de 2013

Sob o sol do meio dia


Acordou antes do raiar do sol, como de costume. Lavou o rosto na bacia esmaltada já desgastada pelo uso, escovou os dentes de cócoras no quintal, lavando a boca com a água da velha lata de óleo usada como caneco. Fez o café coado para o marido e os filhos que ainda dormiam, bebendo uns goles quentes enquanto ajeitava os teréns no alforje e tirava para fora o carrinho de mão. Sentou-se na pedra grande que servia de banco no quintal e desenrolou a faixa que protegia o ferimento no pé. A aparência não estava nada boa, constatou sob a luz bruxuleante do candeeiro, aquilo havia infeccionado e doía bastante. Talvez por causa da ferrugem que cobria a foice, causadora da chaga. Fez a limpeza do local, colocou mais um pouco do emplastro de folhagens e trocou as bandagens. Enfiar o pé na bota foi o mais difícil, mas suportou a dor.

Pensou no marido e na sua cansativa jornada de trabalho como oleiro, que durava desde o nascer até o pôr do sol. Era escuro ainda quando ele saía em seu passo arrastado todos os dias e se dirigia para a olaria que ficava nas proximidades do povoado e só retornava quando o escuro da noite já se anunciava novamente. Por isso hoje, no domingo, único dia de descanso do coitado, nem passou pela sua cabeça acordá-lo para colher as verduras em seu lugar, o que pouparia um pouco o seu pé machucado. 

Quando saiu do povoado e pegou a estrada de cascalho, o sol começava a surgir no horizonte. Esse momento era só seu, espetáculo que enfeitava seus dias compridos e cansados e  suavizava a dureza da sua vida. Por vezes parava para apreciar mais detidamente essa obra da natureza que era o nascer do sol, a majestade dos traços e cores que se desenhavam no céu enquanto o sol aparecia lentamente.

Não era dada a rezas e preces, mas nesses momentos sentia tal comoção que bem rezaria um padre nosso se tivesse tempo. Mas a lida a chamava e o sol logo, logo estaria muito quente, era preciso pressa, para voltar cedo com o carrinho cheio das verduras que venderia de porta em porta, a freguesia já esperando. E o pé, doendo daquele jeito, quase insuportável.

Os cuidados com a plantação também eram tarefa sua. Por isso, todos os dias pegava a estrada em direção ao pequeno sítio que garantia quase todo o sustento da família e onde moraram por muitos anos, até a idade escolar dos meninos. Mudaram-se para o povoado de comum acordo. Ela e o marido entendiam que os filhos precisavam estudar para ter um futuro melhor do que o deles, para não penar a mesma sina de vida difícil e trabalho pesado.

O ferimento no pé, dolorido e inflamado, reforçou essa certeza. Por várias vezes pensou em tirar a bota para aliviar a dor. Se não o fazia era por medo de cobras, que abundavam naquela região. Era uma mulher corajosa e enfrentava sem temor qualquer perigo ou obstáculo. Mas, cobras não. Criaturas repulsivas, com aquele ar traiçoeiro, só de pensar tinha calafrios na espinha e suores nas mãos. Desde pequena era assim, apesar dos ensinamentos da mãe: ‘Sinhá, cobra também é criatura de Deus, não é malvada, só ataca se for ameaçada.’ Qual nada! E aqueles olhos maléficos?

O sol hoje estava no ponto, nem tão quente que ardesse na pele, nem tão frio que não aquecesse os ossos. Em dias assim, Dona Sinhá quase sentia alegria. O trabalho parecia mais leve, as mãos eram mais ágeis e o fardo menos pesado. Lembrou que precisava experimentar uma nova semente de coentro, um tipo mais graúdo e volumoso, que Dona Martina havia trazido para ela de uma viagem que fizera à casa de parentes na capital.

Estava distraída levando o carrinho cheio de alfaces e cebolinhas para o canteiro dos coentros quando de repente parou estarrecida – Deus céu! – lá estava ela! uma  cobra coral tranquilamente tomando sol no terreiro. E agora? Não sabia o que fazer, já estava muito perto. Primeiro quis correr, mas as pernas não obedeciam. Depois pensou em ficar quieta e imóvel até a maldita resolver ir embora. O suor escorria pelo rosto e pescoço, apesar do frescor do dia. Então, uma ideia instintiva brotou em sua mente paralisada. O carrinho de mão estava ali na sua frente. Bastaria empurrá-lo na direção da serpente, forçando o pneu de madeira sobre seu espinhaço. Entre pensar e agir passou uma eternidade.

Finalmente, segurou firmemente o carrinho e levantou a parte traseira. Então uma voz surgiu lá do passado e se fez pesar sobre a sua consciência: ‘cobra é criatura de Deus, Sinhá.’ Nesse meio tempo de hesitação, um pé de alface rolou para a frente do carrinho inclinado e caiu sobre a coral, que num serpenteio rápido e fugidio enveredou-se pelos arbustos que ladeavam o oitão da casa. Com passos vacilantes e armada com uma pedra e um porrete, vasculhou as proximidades do lugar, buscando ter certeza que a cobra se fora, que enveredara pelo mato.

Passado o susto, Dona Sinhá voltou aos coentros, não sem cautelas preventivas, um olho no canteiro e outro nos arbustos por onde a cobra sumira. Aos poucos foi sossegando e voltando a se concentrar no trabalho, gostando do que fazia, inebriando-se do cheiro dos coentros verdinhos e frescos, e voltando a se sentir quase alegre. Se não fosse a ferida no pé, que agora latejava como se fervesse... Parecia que o pé crescera dentro da bota.

Acabou a colheita, limpou e ajeitou no alforje os instrumentos de trabalho, bebeu um gole de água da velha cabaça e resolveu abrir mais uma vez os curativos para ver a ferida. Temia não agüentar andar todo o percurso de volta ao povoado.

Deu a volta pela lateral da casa mancando, pensando que talvez tivesse que improvisar uma muleta. Sentou-se no velho tronco debaixo do pé de gameleira da frente da casa e tirou a bota, sentindo um pequeno alívio. Olhou em volta cuidadosamente para se certificar que a coral não estava por ali. Removeu as bandagens e examinou a ferida. Alcançou a cabaça e derramou água fresca na velha cuia que usava para lavar-se. Mergulhou o pé nesse refrigério molhado até que a ferida estivesse toda coberta.

Assim permaneceu por muito tempo, olhos fechados, recostada no tronco da gameleira. Adormeceu, braços pendidos, para acordar assustada com a fisgada na mão esquerda apoiada no chão. Num pulo, pôs-se de pé e sentiu o peso na mão – minha nossa! era a coral! Pai do céu! A coral estava grudada em sua mão! – Sacudiu freneticamente, desesperada, gritando, até a cobra cair. Nem tanto o veneno, mas a certeza do ocorrido turvou suas vistas e ela se sentou petrificada. Não conseguia se mexer. A cobra sumira novamente.

Algum tempo depois, não saberia precisar quanto, levantou-se, sabia que precisava buscar ajuda. Deu alguns passos vacilantes e trôpegos, não conseguia apoiar o pé no chão. Alcançou a porteira, quase rastejando. Se conseguisse chegar à estrada de cascalho, talvez conseguisse ajuda. Talvez, se alguém passasse a tempo.

Sentia que o seu peito estava sendo oprimido, a passagem do ar bloqueada, como se o peso de uma tonelada a impedisse de respirar. Prostrou-se de joelhos, o corpo todo em um estado letárgico. Lágrimas de desespero lhe vieram aos olhos. Não queria morrer! Deus... não queria morrer ali, sozinha. O que seria dos filhos, ainda tão pequenos? E o marido, como daria conta de tanta coisa sozinho? Senhor, não podia morrer!

Reuniu o pouco de força que lhe restava e rastejou mais alguns metros, ferindo as mãos nos pedregulhos e espinhos do chão. De repente deu-se conta que não sentia mais o pé doente. Não, não sentia mais o corpo inteiro, apenas aquela dor queimando no peito, os pulmões oprimidos buscando desesperadamente um resquício de ar. Caiu de bruços, sem forças a alguns passos do local onde a coral tranquilamente tomava sol.

Os tons avermelhados e tremeluzentes da pele da coral confundiam-se com o sol escaldante que agora feria seu corpo, cúmplices, cobra e sol, em roubar-lhe a energia vital. A cobra moveu-se preguiçosamente em sua direção, criando movimentos ondulantes e irisados, flutuando em meio às ondas de calor que baixavam na terra. E a última coisa que os olhos turvos de Dona Sinhá viram foi o olhar maléfico da cobra em meio ao colorido ofuscante sob o sol do meio dia.

Normeide Rios 

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