Acordou
antes do raiar do sol, como de costume. Lavou o rosto na bacia esmaltada já
desgastada pelo uso, escovou os dentes de cócoras no quintal, lavando a boca
com a água da velha lata de óleo usada como caneco. Fez o café coado para o
marido e os filhos que ainda dormiam, bebendo uns goles quentes enquanto
ajeitava os teréns no alforje e tirava para fora o carrinho de mão. Sentou-se
na pedra grande que servia de banco no quintal e desenrolou a faixa que
protegia o ferimento no pé. A aparência não estava nada boa, constatou sob a
luz bruxuleante do candeeiro, aquilo havia infeccionado e doía bastante. Talvez
por causa da ferrugem que cobria a foice, causadora da chaga. Fez a limpeza do
local, colocou mais um pouco do emplastro de folhagens e trocou as bandagens.
Enfiar o pé na bota foi o mais difícil, mas suportou a dor.
Pensou
no marido e na sua cansativa jornada de trabalho como oleiro, que durava desde
o nascer até o pôr do sol. Era escuro ainda quando ele saía em seu passo
arrastado todos os dias e se dirigia para a olaria que ficava nas proximidades
do povoado e só retornava quando o escuro da noite já se anunciava novamente.
Por isso hoje, no domingo, único dia de descanso do coitado, nem passou pela
sua cabeça acordá-lo para colher as verduras em seu lugar, o que pouparia um
pouco o seu pé machucado.
Quando
saiu do povoado e pegou a estrada de cascalho, o sol começava a surgir no
horizonte. Esse momento era só seu, espetáculo que enfeitava seus dias
compridos e cansados e suavizava a
dureza da sua vida. Por vezes parava para apreciar mais detidamente essa obra
da natureza que era o nascer do sol, a majestade dos traços e cores que se desenhavam
no céu enquanto o sol aparecia lentamente.
Não
era dada a rezas e preces, mas nesses momentos sentia tal comoção que bem
rezaria um padre nosso se tivesse tempo. Mas a lida a chamava e o sol logo,
logo estaria muito quente, era preciso pressa, para voltar cedo com o carrinho
cheio das verduras que venderia de porta em porta, a freguesia já esperando. E
o pé, doendo daquele jeito, quase insuportável.
Os
cuidados com a plantação também eram tarefa sua. Por isso, todos os dias pegava
a estrada em direção ao pequeno sítio que garantia quase todo o sustento da
família e onde moraram por muitos anos, até a idade escolar dos meninos.
Mudaram-se para o povoado de comum acordo. Ela e o marido entendiam que os
filhos precisavam estudar para ter um futuro melhor do que o deles, para não
penar a mesma sina de vida difícil e trabalho pesado.
O
ferimento no pé, dolorido e inflamado, reforçou essa certeza. Por várias vezes
pensou em tirar a bota para aliviar a dor. Se não o fazia era por medo de
cobras, que abundavam naquela região. Era uma mulher corajosa e enfrentava sem
temor qualquer perigo ou obstáculo. Mas, cobras não. Criaturas repulsivas, com
aquele ar traiçoeiro, só de pensar tinha calafrios na espinha e suores nas
mãos. Desde pequena era assim, apesar dos ensinamentos da mãe: ‘Sinhá, cobra também
é criatura de Deus, não é malvada, só ataca se for ameaçada.’ Qual nada! E
aqueles olhos maléficos?
O
sol hoje estava no ponto, nem tão quente que ardesse na pele, nem tão frio que
não aquecesse os ossos. Em dias assim, Dona Sinhá quase sentia alegria. O
trabalho parecia mais leve, as mãos eram mais ágeis e o fardo menos pesado. Lembrou
que precisava experimentar uma nova semente de coentro, um tipo mais graúdo e
volumoso, que Dona Martina havia trazido para ela de uma viagem que fizera à
casa de parentes na capital.
Estava
distraída levando o carrinho cheio de alfaces e cebolinhas para o canteiro dos
coentros quando de repente parou estarrecida – Deus céu! – lá estava ela!
uma cobra coral tranquilamente tomando
sol no terreiro. E agora? Não sabia o que fazer, já estava muito perto.
Primeiro quis correr, mas as pernas não obedeciam. Depois pensou em ficar
quieta e imóvel até a maldita resolver ir embora. O suor escorria pelo rosto e
pescoço, apesar do frescor do dia. Então, uma ideia instintiva brotou em sua
mente paralisada. O carrinho de mão estava ali na sua frente. Bastaria
empurrá-lo na direção da serpente, forçando o pneu de madeira sobre seu
espinhaço. Entre pensar e agir passou uma eternidade.
Finalmente,
segurou firmemente o carrinho e levantou a parte traseira. Então uma voz surgiu
lá do passado e se fez pesar sobre a sua consciência: ‘cobra é criatura de
Deus, Sinhá.’ Nesse meio tempo de hesitação, um pé de alface rolou para a
frente do carrinho inclinado e caiu sobre a coral, que num serpenteio rápido e
fugidio enveredou-se pelos arbustos que ladeavam o oitão da casa. Com passos
vacilantes e armada com uma pedra e um porrete, vasculhou as proximidades do
lugar, buscando ter certeza que a cobra se fora, que enveredara pelo mato.
Passado
o susto, Dona Sinhá voltou aos coentros, não sem cautelas preventivas, um olho
no canteiro e outro nos arbustos por onde a cobra sumira. Aos poucos foi
sossegando e voltando a se concentrar no trabalho, gostando do que fazia,
inebriando-se do cheiro dos coentros verdinhos e frescos, e voltando a se
sentir quase alegre. Se não fosse a ferida no pé, que agora latejava como se
fervesse... Parecia que o pé crescera dentro da bota.
Acabou
a colheita, limpou e ajeitou no alforje os instrumentos de trabalho, bebeu um
gole de água da velha cabaça e resolveu abrir mais uma vez os curativos para
ver a ferida. Temia não agüentar andar todo o percurso de volta ao povoado.
Deu
a volta pela lateral da casa mancando, pensando que talvez tivesse que
improvisar uma muleta. Sentou-se no velho tronco debaixo do pé de gameleira da
frente da casa e tirou a bota, sentindo um pequeno alívio. Olhou em volta
cuidadosamente para se certificar que a coral não estava por ali. Removeu as
bandagens e examinou a ferida. Alcançou a cabaça e derramou água fresca na
velha cuia que usava para lavar-se. Mergulhou o pé nesse refrigério molhado até
que a ferida estivesse toda coberta.
Assim
permaneceu por muito tempo, olhos fechados, recostada no tronco da gameleira.
Adormeceu, braços pendidos, para acordar assustada com a fisgada na mão
esquerda apoiada no chão. Num pulo, pôs-se de pé e sentiu o peso na mão – minha
nossa! era a coral! Pai do céu! A coral estava grudada em sua mão! – Sacudiu
freneticamente, desesperada, gritando, até a cobra cair. Nem tanto o veneno,
mas a certeza do ocorrido turvou suas vistas e ela se sentou petrificada. Não
conseguia se mexer. A cobra sumira novamente.
Algum
tempo depois, não saberia precisar quanto, levantou-se, sabia que precisava
buscar ajuda. Deu alguns passos vacilantes e trôpegos, não conseguia apoiar o
pé no chão. Alcançou a porteira, quase rastejando. Se conseguisse chegar à
estrada de cascalho, talvez conseguisse ajuda. Talvez, se alguém passasse a
tempo.
Sentia
que o seu peito estava sendo oprimido, a passagem do ar bloqueada, como se o
peso de uma tonelada a impedisse de respirar. Prostrou-se de joelhos, o corpo
todo em um estado letárgico. Lágrimas de desespero lhe vieram aos olhos. Não
queria morrer! Deus... não queria morrer ali, sozinha. O que seria dos filhos,
ainda tão pequenos? E o marido, como daria conta de tanta coisa sozinho?
Senhor, não podia morrer!
Reuniu
o pouco de força que lhe restava e rastejou mais alguns metros, ferindo as mãos
nos pedregulhos e espinhos do chão. De repente deu-se conta que não sentia mais
o pé doente. Não, não sentia mais o corpo inteiro, apenas aquela dor queimando
no peito, os pulmões oprimidos buscando desesperadamente um resquício de ar. Caiu
de bruços, sem forças a alguns passos do local onde a coral tranquilamente
tomava sol.
Os
tons avermelhados e tremeluzentes da pele da coral confundiam-se com o sol
escaldante que agora feria seu corpo, cúmplices, cobra e sol, em roubar-lhe a
energia vital. A cobra moveu-se preguiçosamente em sua direção, criando
movimentos ondulantes e irisados, flutuando em meio às ondas de calor que
baixavam na terra. E a última coisa que os olhos turvos de Dona Sinhá viram foi
o olhar maléfico da cobra em meio ao colorido ofuscante sob o sol do meio dia.
Normeide Rios
Normeide Rios

Até parece conto da minha infância.
ResponderExcluirFoi inspirado na minha infância, Tom.
Excluir