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segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Dois amores



Uma década e meia atrás, quando saí da pacata Várzea da Roça e vim morar em Feira de Santana, um amigo me disse: eu sempre soube que você não tinha recheio varzeano, você é de outros lugares. Na época, jovem interiorana de cidade muito pequena, e com poucas oportunidades, e muito empolgada com as possibilidades que a ‘cidade grande’ me oferecia, concordei. E por alguns anos, acreditei mesmo nisso, me convenci que eu não era dali, apenas lá havia nascido. Detalhe importante é que esse amigo que me disse isso não era varzeano, morava na nossa cidadezinha há apenas alguns anos.

Hoje, 15 anos tendo se passado, descubro-me pensando no tal ‘recheio varzeano’. O que vem mesmo a ser isso, que na opinião do meu amigo eu nunca tivera? Para encontrar a resposta, preciso analisar o meu recheio: de que ele é feito?

Encontro nele um amor enorme por Feira de Santana, cidade pela qual me apaixonei no primeiro dia em que por aqui passei, em 1985, indo para a Ilha de Itaparica, na excursão da 8ª série. Era domingo e atravessamos o centro da cidade de ônibus, a galerinha na maior muvuca e eu em estado de êxtase, alheia a tudo dentro do ônibus, olhos parados na Avenida Getúlio Vargas, presa por não sei quais fios invisíveis àquelas ruas desertas de final de tarde domingueiro. Fui capturada.

Encontro no meu recheio, o retorno a essa cidade do coração, dessa vez para morar, treze anos depois. E a vida que construí aqui, os amigos conquistados e que me conquistaram, colegas de trabalho, o crescimento dos meus filhos, seus estudos e, gradativamente, seus encaminhamentos no mundo do trabalho. Aqui nasceu minha caçula, hoje com cinco anos. Aqui construí minha vida profissional. E estudei, continuo estudando, o que sempre quis fazer.

Mas, olha lá, vejo Várzea da Roça no meu recheio! Sim, minha cidadezinha também me preenche. E não é com uma parcela mínima não. Existe muito de Várzea em mim. Vejo minhas primeiras descobertas, meus primeiros aprendizados, minha família, meu primeiro amor, as primeiras e mais sinceras amizades. Vejo minha infância de menina levada que subia em árvore, tomava banho em lagoas, jogava futebol e ganhava dos meninos no jogo de bolinha de gude. Mas vejo também a aluna disciplinada e estudiosa. Nessa cidadezinha nasci, cresci, me casei, e nasceram meus três primeiros filhos. Nessa cidade iniciei minha vida profissional. Quantas pessoas especiais participaram desse pedaço da minha história? Muitas.

Moro em Feira de Santana e tenho raízes plantadas em Várzea da Roça. Essas duas cidades me habitam, me formam, me ‘recheiam’. Hoje posso responder ao meu amigo com segurança: sim, eu tenho recheio varzeano e tenho orgulho disso. O que talvez faça a diferença, e que pode ter sido confundido com ausência de, é que esse recheio pede outros recheios, outros conhecimentos, outras vivências. Sempre tive a necessidade de buscar outros horizontes, de ampliar minhas fronteiras. 

 Normeide Rios


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