Uma década e meia atrás, quando saí da
pacata Várzea da Roça e vim morar em Feira de Santana, um amigo me disse: eu
sempre soube que você não tinha recheio varzeano, você é de outros lugares. Na
época, jovem interiorana de cidade muito pequena, e com poucas oportunidades, e
muito empolgada com as possibilidades que a ‘cidade grande’ me oferecia,
concordei. E por alguns anos, acreditei mesmo nisso, me convenci que eu não era
dali, apenas lá havia nascido. Detalhe importante é que esse amigo que me disse
isso não era varzeano, morava na nossa cidadezinha há apenas alguns anos.
Hoje, 15 anos tendo se passado, descubro-me
pensando no tal ‘recheio varzeano’. O que vem mesmo a ser isso, que na opinião
do meu amigo eu nunca tivera? Para encontrar a resposta, preciso analisar o meu
recheio: de que ele é feito?
Encontro nele um amor enorme por Feira
de Santana, cidade pela qual me apaixonei no primeiro dia em que por aqui
passei, em 1985, indo para a Ilha de Itaparica, na excursão da 8ª série. Era
domingo e atravessamos o centro da cidade de ônibus, a galerinha na maior
muvuca e eu em estado de êxtase, alheia a tudo dentro do ônibus, olhos parados
na Avenida Getúlio Vargas, presa por não sei quais fios invisíveis àquelas ruas
desertas de final de tarde domingueiro. Fui capturada.
Encontro no meu recheio, o retorno a
essa cidade do coração, dessa vez para morar, treze anos depois. E a vida que
construí aqui, os amigos conquistados e que me conquistaram, colegas de
trabalho, o crescimento dos meus filhos, seus estudos e, gradativamente, seus
encaminhamentos no mundo do trabalho. Aqui nasceu minha caçula, hoje com cinco
anos. Aqui construí minha vida profissional. E estudei, continuo estudando, o
que sempre quis fazer.
Mas, olha lá, vejo Várzea da Roça no meu
recheio! Sim, minha cidadezinha também me preenche. E não é com uma parcela
mínima não. Existe muito de Várzea em mim. Vejo minhas primeiras descobertas,
meus primeiros aprendizados, minha família, meu primeiro amor, as primeiras e
mais sinceras amizades. Vejo minha infância de menina levada que subia em
árvore, tomava banho em lagoas, jogava futebol e ganhava dos meninos no jogo de
bolinha de gude. Mas vejo também a aluna disciplinada e estudiosa. Nessa
cidadezinha nasci, cresci, me casei, e nasceram meus três primeiros filhos.
Nessa cidade iniciei minha vida profissional. Quantas pessoas especiais
participaram desse pedaço da minha história? Muitas.
Moro em Feira de Santana e tenho raízes
plantadas em Várzea da Roça. Essas duas cidades me habitam, me formam, me
‘recheiam’. Hoje posso responder ao meu amigo com segurança: sim, eu tenho
recheio varzeano e tenho orgulho disso. O que talvez faça a diferença, e que
pode ter sido confundido com ausência de, é que esse recheio pede outros
recheios, outros conhecimentos, outras vivências. Sempre tive a necessidade de
buscar outros horizontes, de ampliar minhas fronteiras.
Normeide Rios
Normeide Rios


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